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Artigos e opinião

O jegue ainda tem o seu lugar

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Em época de veículos automotores de mil e uma utilidades, os muares e asininos, como são chamados os burros e os jumentos, ainda mantêm a sua utilidade. Afinal, são animais resistentes, eficientes e úteis no transporte de pessoas e de cargas nas propriedades rurais, onde nem sempre a máquina faz a diferença. Nos templos bíblicos, a figura do jumento, também conhecido como jegue nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, era o animal mais utilizado pelas pessoas bastante simples das cidades e dos povoados. Jesus Cristo preferiu entrar em Jerusalém montado num jeguinho, segundo Mateus 21.5.

Após sucessivas eras, tanto os burros quanto os jumentos entraram no Brasil Colônia para nunca mais sair. Esses animais podem receber a sela em seu dorso e assim dar mais conforto ao passageiro. Além do mais, protege também o próprio animal da carga apoiada sobre ela. Na lida, o jumento por sua força serve para puxar arados e mover rodas de moinhos de cereais. As mulas, fêmeas oriundas do cruzamento entre o jumento e a égua, aos poucos substituíram os jegues como símbolo de status. O cavalo, por sua vez, era mais usado para viagens de passageiros de longa distância, pela velocidade que alcançava e para a guerra.

No lombo de burros e mulas, o Brasil cresceu, evoluiu e se desenvolveu. Os muares foram utilizados desde o Brasil Império e foi sobre o lombo dos resistentes burros e mulas que foram transportados alimentos, mercadorias diversas e, até mesmo, armas e munições. Seu papel foi mais extraordinário ajudando a transportar em dado momento, nossas ingentes riquezas: o ouro das minas, o açúcar dos engenhos e o café das fazendas. No tropeirismo, tiveram importante papel na formação do Brasil, em específico no Rio Grande do Sul – criando e mantendo núcleos urbanos que viviam isolados, desenvolvendo efetiva atividade econômica.

Goiás, Estado agropecuário por excelência, adotou tanto a mula quanto os jumentos para a lida nas fazendas. Usado unicamente como meio de transporte durante muitos anos, os equídeos têm conquistado outras áreas de atuação, com forte tendência para lazer, esportes e até terapia. Uma de suas principais funções, contudo, continua sendo o trabalho diário nas atividades agropecuárias, onde aproximadamente cinco milhões de animais são utilizados, principalmente, para o manejo do gado bovino. O Estado conta, atualmente, com cerca de 6.500 asininos e 450 mil equinos. Os criadores totalizam 10 mil.

As cavalgadas que ganham notoriedade nacional sempre contam com os muares e asininos. Exemplos marcantes são os eventos de Iporá, Uruaçu e Goiânia. Somente a cidade de Iporá, situada no Oeste de Goiás, promove suas cavalgadas. A mais recente, ocorrida o ano passado, reuniu mais de três mil animais, constituindo-se num recorde e na maior festa do gênero no Brasil. Brasília, conhecida pela presença dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário na Capital Federal, detém um núcleo importante de criadores na área de provas. O reconhecimento nacional se constata pela Campanha Nacional de Muares, com criadores ases no segmento de provas e domas.

Maurício Farias, que já presidiu a Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura (SGPA) e a Agência Goiana de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Agrodefesa), é um dos criadores de muares. Ele conta com 46 animais do mais alto pedigree e confessa que Goiás detém um rebanho de qualidade, onde sobressaem as partes zootécnicas e de manejo. “É um avanço, sem dúvida, porque antes os criadores não davam importância a esses fatores”, explica, observando que a maioria tem seus veterinários ou zootecnistas para a indispensável orientação. “Os produtores evoluíram quanto à produção e à nutrição e a zootécnica vem em função disso”, mata a charada.

É interessante a observação de Maurício Farias sobre a resistência e a eficiência desses animais na lida rural. Segundo ele, um muar alcança a idade dos vinte anos e ainda trabalha ou participa de cavalgadas. Em Goiás, é comum o cruzamento do jumento da raça Pega com a égua Mangalarga ou Mangalarga Marchador. Faz-se também a cruza com o Quarto de Milha, proporcionando um animal forte para a lida e de boa índole. Os muares se adaptam bem ainda para a prova de laço. Os tempos galopam e os muares e asininos, a exemplo dos equinos, vão sempre encontrando o seu espaço nobre.

(Wandell Seixas, jornalista voltado para o agro; autor do livro “O Agronegócio passa pelo Centro-Oeste”)

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