Saúde
Morre mãe de irmãos deficientes
Valentina deu exemplo de dedicação ao cuidar de cinco filhos doentes em Carmo do Rio Verde
A casa humilde em Carmo do Rio Verde, a 176 quilômetros de Goiânia, onde moram os cinco irmãos que não andam e apresentam dificuldades na fala não é mais a mesma. Não tem mais o brilho, a determinação e a presença forte de Valentina Lemos de Brito. A mãe dos “cinco meninos”, como carinhosamente os chamava, morreu na tarde de ontem, aos 84 anos, em decorrência de problemas cardíacos.
A garra demonstrada por Valentina Lemos e o drama vivido por ela em decorrência da anomalia raríssima apresentada por cinco de seus oito filhos tornaram-se conhecidos pela população nacional em abril de 2006, por meio de uma reportagem veiculada pelo programa Fantástico, da Rede Globo . A partir de então, autoridades das áreas social e de saúde, da prefeitura local e do Estado, desenvolveram iniciativas emergenciais para garantir melhores condições de vida à família.
Os meninos chegaram a ficar internados no Centro de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer), na capital, onde passaram por uma bateria de exames e por avaliações médicas. Sensibilizados, representantes de entidades filantrópicas coordenaram doações à família. Mas a ajuda durou poucos meses. Hoje, como antes, os irmãos vivem de parcos rendimentos, com o apoio quase que exclusivo de parentes.
Queda
Valentina Lemos começou a apresentar problemas sérios de saúde alguns meses depois de sua história pessoal ter se tornado pública. Em agosto de 2006, ela contraiu uma infecção generalizada decorrente de complicações de infecção na bexiga. Na ocasião, os médicos informaram que o estado de saúde da mulher havia se agravado pelo fato de ela ter se dedicado exaustivamente aos filhos e não ter realizado exames nem procurado assistência médica quando apresentou os primeiros sintomas da doença.
Há cerca de três anos, conforme a sobrinha Ana Maria de Brito Vieira, Valentina foi ficando mais enfraquecida. A mulher chegou a internar-se algumas vezes em função de problemas cardíacos. Há pouco mais de um mês, Valentina Lemos caiu no banheiro de casa e fraturou o fêmur. Mais uma vez, veio para Goiânia, onde foi submetida a uma cirurgia no Hospital Santa Genoveva.
No último dia 14, Valentina Lemos foi para a cidade natal. A mulher guerreira permaneceu os últimos dias ao lado dos filhos. Conforme a sobrinha, ela esteve lúcida até o último instante. Morreu deitada na cama do quarto, queixando-se de dor no peito e de falta de ar, cercada por parentes e por vizinhos.
A doença
Os dois primeiros filhos de Valentina Brito – Maria Lemos Arruda, de 63 anos, e Neusa lemos de Castro, de 61 – tiveram desenvolvimento normal. O terceiro, Carlos Lemos de Brito, hoje com 60 anos, cresceu como os outros até 1 ano e 6 meses de idade. A mãe percebeu que alguma coisa estava errada com o filho quando ele caminhava segurando na mureta do alpendre e, de repente, caiu. Desde então, o menino não conseguiu ficar em pé e nunca mais se levantou.
Um ano depois, nasceu o quarto filho, Paulo Delfino de Brito, morto em 2007. Como as duas filhas mais velhas, ele não apresentou problemas de saúde. A deficiência apresentada por Carlos Lemos iria se multiplicar a partir de então. Os quatro filhos mais novos, Pauleides Delfino de Brito, de 57, Jorge Lemos de Brito, de 53, Emival Lemos de Brito, de 51, e Ivany Lemos de Brito, de 49, a caçula, desenvolveram a mesma doença.
Desde crianças, os filhos de Valentina chamavam a atenção dos moradores de Carmo do rio Verde. Eles se locomoviam sobre mãos e pés, à maneira dos quadrúpedes. Com o passar dos anos, começaram a usar os joelhos no lugar dos pés. Atualmente, apenas Jorge e Ivany conseguem engatinhar dessa forma. Os outros se arrastam pela casa. A doença foi diagnosticada como síndrome neurológica hipotônica, progressiva, irreversível e de causa indefinida.
Valentina Lemos sempre cuidou dos filhos de uma maneira especial. Em entrevista ao POPULAR em 2006, ela acentuou que zelava dos filhos “com o coração”. Disse que não via nos filhos deficientes um fardo a carregar. Conforme Ana Maria de Brito Vieira, a partir de agora, os cinco irmãos serão cuidados por ele e pelas filhas mais velhas de Valentina.

