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Política

Aguimar Jesuíno: “Igrejas não são currais eleitorais”

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Iporaense candidato ao Senado pelo PSB/Rede avalia como retrocesso líderes religiosos darem apoio irrestrito a candidatos negando senso crítico a fiéis. Para ele, não se pode “politizar” a fé.

O Iporaense candidato a senador pelo Partido Socialista Brasileiro/Rede da Sustentabilidade, Aguimar Jesuíno, considera um retrocesso histórico a ingerência de líderes religiosos em assuntos essencialmente partidários, nesse período eleitoral. “É um grande desserviço anular a discussão política com um apoio integral, sem permitir que os seguidores de cada culto ou fé exerçam a liberdade de crítica e avaliação e escolham outros candidatos.”
{loadposition adsense}Advogado formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás, ex-dirigente da Seccional goiana da OAB e procurador federal da Advocacia Geral da União em Goiás, Aguimar Jesuíno é goiano de Iporá e sempre teve militância política ligada aos movimentos de vanguarda.

 

Com uma postura corajosa, ele enfrenta apoios manifestados até mesmo ao seu candidato a governador, Vanderlan Cardoso, que é evangélico declarado, tem apoio declarado de líderes religiosos, mas sabe manter a prudente distância entre fé e política.

Aguimar é incisivo ao criticar a forma como lideranças religiosas declaram apoio a candidatos e suspeita que, por trás desses apoios, existam interesses nada sagrados. “O que parece é que tratam as igrejas como se fossem currais eleitorais, utilizados para satisfazer interesses individuais e obter vantagens”, assinala.

Leia abaixo a entrevista do Iporaense para o Jornal Diário da Manhã de Goiânia

Diário da Manhã – Como você vê essa participação de líderes religiosos em processos eleitorais?

Aguimar Jesuíno – O Brasil, diferente de outros países, é um Estado laico, sem vinculação do Estado a qualquer credo religioso. A Constituição assegura o direito de todas as religiões se estabelecerem e proíbe o preconceito, sem interferência do Estado. O contrário também é verdadeiro, isto é, a religião não pode servir de instrumento para que grupos políticos ou religiosos, travestidos de políticos, a utilizem em proveitos políticos e eleitorais. Acho que, quando isto é feito, estamos reproduzindo aquela velha política dos coronéis, em que o líder da igreja trata seus fiéis como aquela população do início do século passado, como se fosse um curral eleitoral, o que é inaceitável.

Diário da Manhã – O senhor considera que credos religiosos estejam sendo tratados como currais eleitorais?

Aguimar Jesuíno – Sim, só que de uma forma moderna. No passado, um fazendeiro ou coronel, um líder político do Brasil rural era dono dos votos. Estão reproduzindo essa velha prática de controlar os votos de maneira absolutamente antidemocrática, em que uma liderança que tenha ascendência sobre um determinado segmento ou agrupamento social ou religioso e, na realidade, estão é vendendo esses apoios. Essa indicação de voto nunca se dá de graça, acontece mediante algum favor ou promessa de favorecimento do Estado para essa organização ou para seus líderes. Eu acho que um líder religioso dizer que sua igreja apoia de maneira oficial um determinado candidato, como estamos assistindo aqui em Goiás, de maneira reiterada, ele no mínimo está subestimando a inteligência de seus fiéis.

“A religião não pode servir de instrumento para que grupos políticos ou religiosos, travestidos de políticos, a utilizem em proveitos políticos e eleitorais”

Diário da Manhã – Em qual sentido?

Aguimar Jesuíno – O líder religioso que age dessa maneira está retirando a capacidade de seus fiéis de decidirem o caminho que, politicamente, querem seguir. Ao invés de incentivarem os fiéis a avaliarem de forma crítica e observadora cada candidato, e escolher o que de melhor considera para seu Estado ou para o País, eles tornam dogmática a indicação para esse ou aquele candidato. Estão subestimando a capacidade de raciocínio e capacidade crítica de seus fiéis e, o que é pior, parece que estão negociando os votos de seus fiéis. Um bom líder religioso, de qualquer igreja, credo ou fé, deve despertar o senso crítico em seus fiéis e ajudá-los a encontrar pela inteligência coletiva o que é melhor para si, para seus filhos e netos e para seus irmãos. Para que possam prestar atenção no que está ocorrendo em sua cidade, em seu Estado e no seu País, na sociedade e nas contradições que existem nessa sociedade, no comportamento pessoal e partidário desses políticos, que os fiéis façam a melhor escolha, que eles individualmente façam a escolha que melhor lhes ocorrer e não uma indicação maculada pelo dogmatismo e falta de visão crítica. Estão fazendo currais eleitorais dentro de igrejas e, terminantemente, igrejas não são currais eleitorais. O resultado disso é extremamente danoso para a democracia e para a evolução da sociedade.

Diário da Manhã – Essa partidarização da fé compromete a democracia?

Aguimar Jesuíno – Por completo, principalmente porque nega a discussão e o debate que tanto favorecem o estado democrático de direito. Porque não fazem uma discussão, um debate sobre temas que interessam a toda a sociedade. Nós não vimos um só desses líderes religiosos que declararam apoio discutirem um programa de governo. Nenhum deles perguntou a algum candidato qual é o seu plano para a Educação, como pretende administrar o Estado ou propor uma medida de avanço no Parlamento para melhorar a Educação, a vida de nossos filhos e de nossos fiéis. Qual tipo de escola estão propondo, qual tipo de sociedade pretendem, qual as medidas para a segurança pública pretendem para combater a criminalidade, que tipo de democracia pretendem. Os índices de violência são assustadores e as igrejas não chamam os políticos para discutirem essa pauta. Se querem participar da política, que o façam de forma propositiva e avançada, de forma programática, não indicando voto nesse ou naquele candidato apenas porque ele prometeu algum benefício individual para o líder da igreja ou para sua igreja. Isto não é função de nenhuma igreja. Ao fazer isto, a igreja está dilacerando a democracia. Em um sentido bem puro da ciência política, a democracia pressupõe o debate, a existência de discussão de posições, para buscar um consenso de ideias, uma síntese, uma saída para os problemas e um cidadão qualquer, sozinho ou um pequeno grupo em uma sala decidem o destino de milhares de pessoas e essas pessoas não vão seguir esses maus líderes religiosos, porque vão discutir com seus vizinhos, seus parentes, seus amigos, com outras correntes até mesmo religiosas. Vão perceber que estão sendo transformadas em massa de manobra.

Diário da Manhã – O senhor crê ser possível reverter essa tendência?

Aguimar Jesuíno – Sim, felizmente podemos perceber que a sociedade brasileira está adiante disso. Não vai permitir a volta ao coronelismo religioso. Eu respeito todas as religiões. Todas prestam importante serviço no Brasil, servem de forma fundamental ao tirar crianças e jovens das drogas, ao promoverem inclusão social, ao colaborarem com o Estado para realizarem esses serviços essenciais, mas ao partidarizarem suas atividades prestam um grande desserviço à democracia e subestimam a inteligência de seus fiéis.

““Ao partidarizarem suas atividades (as igrejas) prestam um grande desserviço à democracia e subestimam a inteligência de seus fiéis”.

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